Ser democrático, ser liberal ou, eventualmente, até ser socialista, é algo que ainda significa algo para a maioria das pessoas que tem algum contato menos superficial com política. Mas ser republicano é algo que parece ter feito parte de um passado muito longínquo em terras distantes. Em nosso país, o republicanismo parece nunca ter feito do espaço mental dos paulistas das classes médias e altas, poderia até dizer das elites brasileiras como um todo, mas prefiro falar do que conheço melhor.
Para não me demorar muito, republicanismo está ligado a idéia de bem-comum, do bem de todos. Quem não tem dinheiro para pagar escolas particulares, planos de saúde privados, carros, etc., acaba participando, ainda que contra a vontade, da esfera do bem comum: frequenta as escolas públicas, os hospitais públicos, anda de ônibus e à pé pelas vias da cidade, enfim, faz uso dos equipamentos urbanos que são de uso comum e público, de modo que acaba de alguma forma valorizando, ainda que de forma incipiente, alguma modalidade de espaço ou equipamento que serve o bem comum. Já as classes abastadas vivem suas vidas completamente alienadas da realidade comum a todos, pois para essas pessoas tudo existe na esfera do privado, a escola dos filhos, a empresa em que trabalham, o carro que usam para se locomover, os shoppings com seus seguranças, praticamente tudo. Essas pessoas possuem uma dificuldade enorme em se colocar no lugar dos outros e em perceber a realidade de um ponto de vista republicano, ou seja, que a cidade e seus equipamentos devem privilegiar o bem comum de seus habitantes e não o bel prazer de uns e outros.
Dou alguns exemplos. Quem anda à pé em São Paulo sabe a dificuldade de...andar!!! Isso mesmo, é quase impossível andar pelas calçadas de São Paulo sem tropeçar, cair e se machucar, e não falo apenas pelas pessoas com deficiência, crianças pequenas ou idosos, falo por mim mesma, que nunca usei salto alto e tenho que prestar muita atenção quando ando à pé, atividade que deveria ser completamente automático para qualquer ser humano. As calçadas em São Paulo são privadas e não públicas, ou seja, se o morador ou comerciante decidem colocar degraus sem necessidade, fazer rampinhas para seus carros poderem sair com maior facilidade, colocar uns blocos gramados porque acham mais bonito, ou simplesmente deixar a calçada sem reforma por décadas...eles podem, não existe padronização nenhuma!! E quer coisa mais pública que calçada? Foi preciso que uma vereadora tetraplégica percebesse isso e colocasse em marcha uma reforma de algumas poucas calçadas de avenidas principais da cidade, afinal, muitos deficientes, sejam eles pobres ou ricos, não tem escolha, porque não podem dirigir, assim, alguns deficientes com grana eventualmente se sensibilizam para a realidade dos usuários de transporte público e pedestres e resolvem fazer alguma coisa. No entanto, infelizmente, se a pauta dos deficientes avançou na cidade, o bem comum, como sempre, ficou para trás, pois se agora temos alguns ônibus adaptados, a prefeitura não só não aumentou o número de ônibus, corredores de ônibus, etc.., como ainda por cima diminuiu o número de ônibus em circulação! Assim temos que, um setor da sociedade teve algumas de suas demandas atendidas, as pessoas com deficiência, enquanto a população como um todo que se beneficiaria de uma melhora no transporte público, não foi atendida, além disso, a prefeitura ainda não se responsabilizou por todas as calçadas, mas apenas por algumas poucas.
Falando em dirigir, outro bom exemplo é o tal do carro. A grande maioria dos paulistas quando entra no carro, sai de baixo, porque eles são os dono da rua e não importa o interesse de mais ninguém, pedestre, ônibus, bicicleta então...não é à toa que políticos que fazem mais viadutos, túneis e demais obras e fazem menos pelo transporte público tem voto garantido entre as elites, pois estas morrem de medo de precisar abdicar de seu carro eventualmente, ou fazer trajetos mais longos, ou, o apocalipse para estas elites, terem que pegar um transporte público que seja mais eficiente e se misturarem com outra pessoas sem que elas não possam comprar um pedaço do ônibus com ar-condicionado ou com bancos mais confortáveis só para elas.
A mesma história se repete com as escolas, hospitais públicos, etc..Se quem faz parte da elite não anda de ônibus e quase não anda à pé, que dirá ter algum contato, por menor que seja, com escolas e hospitais públicos? As elites não suportam a idéia de se “submeterem” ao bem comum, de não serem mais ou menos especiais porque possuem mais ou menos dinheiro, de ter o mesmo valor de qualquer outro habitante da cidade e de ter de ceder em relação às suas vontades individuais pelo bem de todos. Esse anti-republicanismo paulista reflete as escolhas eleitorais dos paulistas das classes médias e altas, e, infelizmente, até mesmo de pessoas que não fazem parte desses grupos mas acabam copiando seu comportamento e também concedem seu voto aos políticos que não fazem política pensando no bem-comum, mas sim em agradar esses setores da elite ou alguns setores específicos da população, como os deficientes, que podem se transformar em eleitores fiéis. E assim se faz o círculo vicioso.
Fazer política pensando no bem comum realmente não é fácil, afinal, os eleitores são beneficiados como um todo e não em suas demandas particulares, e aí, para muitos cidadãos, não ser beneficiado em suas demandas particulares significa não ser beneficiado em nada, ainda que as políticas que visam o bem comum atinjam a todos e melhorem a vida de todos. As elites, e aqueles que não fazem parte destas mas votam da mesma forma pois talvez aspirem um dia fazer parte para sair do “castigo dos serviços e equipamentos públicos” e gozar as maravilhas do mundo do interesse individual (e não os censuro por isso, afinal viver em São Paulo sem fazer parte das elites não é fácil), não conseguem perceber que se os policiais, os professores e os profissionais de saúde recebessem salários mais dignos, se o transporte público fosse melhor e mais barato, se as ruas e calçadas fossem padronizadas e bem cuidadas, se as praças, parques, bibliotecas e afins fossem valorizados, se aqueles que não possuem acesso à rede de esgotos, luz, coleta seletiva de lixo, e, porque não, internet, passassem a possuir este acesso da mesma forma que os demais habitantes da cidade, enfim, se a cidade como um todo melhorasse seus serviços e equipamentos urbanos, todos viveriam em uma cidade menos violenta, com menos trânsito, mais limpa e muito mais agradável de se viver, porque seria uma cidade mais republicana. Isso tudo é algo muito óbvio, claro e cristalino, mas a maioria dos paulistas prefere viver um apartheid anti-republicano dentro de sua própria cidade do que conceber que todos os cidadãos merecem ser tratados com respeito e dignidade.
Infelizmente, São Paulo tenta exportar para o resto do Brasil um modelo contrário de fazer política, um modelo anti-republicano no qual quem paga pode, quem não paga se dá mal e tem que se virar nos espaços públicos que não são de fato, de todos, mas funcionam quase como um castigo para aqueles que não podem pagar. Resta saber se os demais brasileiros aceitarão que esta política passe a vigorar com força no país inteiro ou não.
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